
Na manhã seguinte, é claro, acordei atormentado. O leitor poderá pensar que foi rematada estupiz minha não perceber que não conseguiria derivar só felicidade da situação em que estava. Mas o leitor provavelmente esqueceu, se é que jamais chegou a saber, o que significa estar passando por isso, a não ser que esteja ele próprio, no momento desta leitura, loucamente apaixonado. Trata-se, como observei, de uma forma de insanidade. Não é insano concentrar toda a atenção exclusivamente numa só pessoa, privando todo o resto do mundo de sentido? Não é insano não ter mais nenhum pensamento, nenhum sentimento, nenhuma existência, a não ser em relação à pessoa amada? O que ela “é” ou ”é de fato” não importa É claro que alguns enlouquecem por causa de pessoas que, aos olhos de outros, não têm nenhum valor. [...] Mas, mesmo que um homem ou uma mulher fossem tão preciosos e sábios que ninguém pudesse nega isso, ainda assim seria uma forma de loucura fixar sobre um único indivíduo esse tipo de atenção idólatra que é estar apaixonado.
Iris Murdoch (1973); O Livro das Citações.





